domingo, 28 de agosto de 2011

Noir

Noir

Na crônica da semana passada falamos do hard boiled, detetive durão insensível, e seus primeiros expoentes: Hammett e Chandler.
Ambientadas em meados do século passado, entre a grande depressão e os “anos dourados”, muitas histórias foram criadas. E tratam de uma América em crise, onde a construção da futura maior nação capitalista do mundo convivia com hordas de desempregados e aventureiros lutando pela vida.
Era uma América contaminada pelo desencanto, onde não havia ilusões entre os desvalidos nem complacência entre os vencedores: um mundo contraditório, cheio de reações ambíguas e homens violentos, os chamados “durões” — expressão imortalizada justamente por este gênero.
Nas histórias há sempre um detetive particular, maltratado pela vida e pelos tiras, que se envolve em casos geralmente estranhos, num mundo com sua lógica própria; são ricaços inescrupulosos, mulheres enigmáticas, prostitutas de luxo, escroques, assassinos de aluguel, tiras corruptos, enfim, gente da pior qualidade mesclada a perdedores de coração mole, tudo a 25 dólares por dia, mais despesas.
Foi a partir dessas histórias publicadas em livros, e também na revista Black Mask, que foi criada na França uma coleção para publicar estas mesmas histórias, todas com capa preta e impressas em papel vagabundo.
O termo pegou. Embora o gênero não tivesse sido inventado na França, a ideia de publicá-las em livros baratos com capas pretas — “noir” — nomeou o gênero. Apropriando-se dele, o cinema — utilizando a fórmula “crime, investigação e solução” e retratando personagens cínicos e durões insensíveis — fez um tremendo sucesso com seus filmes em branco e preto.
Como já disse anteriormente, não sou especialista em livros policiais, sou viciada na leitura deles! Penso o livro policial como o jazz da literatura: as músicas ou movimentos musicais estão sempre superando o que aconteceu antes, inventando e mesclando ritmos, mas o jazz é o Jazz.
Foram criados temas que vão evoluindo à medida que evoluem tecnicamente os instrumentos, mas a base, o tom do jazz, não muda. Enquanto outros movimentos se esgotam, ele continua: é uma grande arte.
O mesmo se diz do romance policial. Enquanto outras formas vão tendendo para o caótico, o romance policial se mantém com começo, meio e fim, e com a mesma fórmula: crime, investigação, solução… e sucesso absoluto de vendas.
noir, com a evolução de colocar o detetive nas ruas, usar e abusar do automóvel, com seus detetives durões e mulheres fatais, começando pelo Falcão Maltês, teve seguidores fantásticos.
James Cain (anos 1930/40), de O Destino Bate à Porta e A Mulher do Mágico, também foi dos inovadores. A maioria das suas tramas segue o mesmo esquema: um homem se apaixona por uma mulher, se envolve em uma atividade criminal com essa mulher e é traído por ela.
Ele desenvolveu o conceito de contar a história do ponto de vista do criminoso. Em o Destino Bate à Porta, um jovem errante deseja a esposa do velho dono de um boteco e, em consequência, os dois planejam o assassinato do marido. Foi um best-seller instantâneo, filmado logo depois. Cain diferia de seus antecessores por fazer de quase todos os seus personagens, senão todos, pessoas genuinamente desagradáveis e más, e revelar através das emoções delas como acabavam chegando ao assassinato.
Enquanto Hammett e Chandler escreviam sobre detetives bons/maus, delicados/durões, que tentavam desenredar a confusão causada por outra pessoa com um ato violento ou ganancioso, Cain criava personagens bidimensionais, interessados apenas em si mesmos, e motivados pelo desejo de dinheiro ou sexo. São personagens falhos, por serem demasiado e inteiramente maus, e o autor não demonstra piedade por eles.
Cain teve um biógrafo que o chamou de “o ovo de vinte minutos da ficção supercozida”, o Super Hard Boiled!
Ross Macdonald (anos 1960/70) criou o detetive Lew Archer, ex-policial de Long Beach, Califórnia, que foi demitido porque não tinha estômago para a administração corrupta da polícia à qual era forçado a servir, e por isso se tornou detetive particular (o mais famoso daquela época). Descrito como um homem solitário, que age com mais eficácia nas sombras, ele é também um “catalisador involuntário de problemas”. Trabalha num escritório pequeno e frio, mas surpreendentemente cheio de livros (que ele avidamente lê quando não está ocupado com um caso). As paredes têm pinturas modernas de boa qualidade.
Archer é diferente de muitos outros detetives durões, no sentido de que não se compraz com sexo promíscuo e tem uma verdadeira afinidade com pessoas jovens. Paul Newman o imortalizou.
Na próxima conto mais!

sábado, 20 de agosto de 2011

Hard boiled

Hard boiled

Continuando nossa historia do gênero policial, vamos dar uma relembrada. O primeiro detetive foi criado por Allan Poe. Em seguida, entre uma e outra baforada de cachimbo, Sherlock Holmes, o personagem criado pelo escocês Sir Arthur Conan Doyle, ficou famoso por desvendar mistérios através de métodos científicos, de observação detalhada e da lógica dedutiva.
Considerado um dos mais importantes personagens da literatura policial, o lendário Hercule Poirot foi criado em 1916 pela eterna dama do crime, Agatha Christie. O metódico detetive belga, sempre vestido de forma elegante, com seu bigode inconfundível, não gostava de perseguir pistas como pegadas ou impressões digitais. Preferia resolver mistérios sentado em sua poltrona, com a ajuda da “massa cinzenta”.
Jules Maigret era um detetive pouco ortodoxo, que trabalhava em um escritório de investigações criminais no Quai des Orfèvres, na capital francesa. Seu método de trabalho se caracterizava pelo uso da intuição em detrimento das evidências factuais. Em vez de descobrir como se deu um crime, Maigret preferia saber o que motivou o criminoso.
Há outros escritores, mas esses foram os mais importantes, que foram incorporando características mais marcantes em seus personagens. A grande virada foi a publicação de O Falcão Maltês.
No final dos anos 1920 (após a depressão), aconteceu uma guinada no perfil da ficção policial. Dashiell Hammett criou a figura do detetive durão, de humor corrosivo e moral menos rígida, o hard boiled.
Na época, Ernest Hemingway estava fazendo uma revolução na literatura “séria”: criava um estilo de histórias com passos rápidos, diálogos curtos, uso e abuso do coloquial, personagens violentos e fatalistas. Dashiel Hammett com certeza leu Hemingway, e isso influenciou todo o estilo  hard boiled.
Dashiel Hammett foi detetive de uma agência na Califórnia e começou a publicar histórias de detetive na revista Black Mask. Na época, os contos publicados nessa revista eram muito bem remunerados! Com esses contos, começou a colocar a literatura policial para ferver, tirando-a da água morna dos detetives cerebrais e colocando o detetive na rua, pronto para o que desse e viesse. Já nos primeiros contos, seus detetives eram profissionais; não tinham nada a ver com aqueles ingleses diletantes, cuja reação mais expressiva diante de um caso complicado era encher um cachimbo ou regar orquídeas. Hammett vestiu seu detetive com roupas bem comuns; enfiou-lhe um chapéu na cabeça, armou-o com um 38, obrigou-o a sair de casa e enfrentar a investigação cara a cara com a situação, o que representou uma grande virada: o detetive nas ruas.
No hard boiled, o detetive deixa de ser a máquina pensante, vai para a rua dando socos e tiros. Já não tem o narrador: atua em primeira pessoa. No entanto, não deixa de ser um dedutivo, e não se perde na luta do bem contra o mal. Um cavaleiro pelas ruas em busca de justiça!
Outra novidade que encantou todo o mundo foi a introdução da mulher inescrupulosa, perversa e fria, atuando de igual para igual com os piores sujeitos e, por comparação, os fazendo até parecer idiotas.
Hammett viveu 30 anos com Lillian Helman, que era a mulher mais feia do mundo. Mas em suas histórias, ele descrevia mulheres maravilhosas.
As histórias aconteciam nas ruas. Por isso o automóvel, outra novidade dos anos 1920, era muito importante.
Sam Spade não tinha carro, talvez porque Hammett não dirigisse. Mas, em seguida, o detetive de Chandler, Philip Marlowe, tinha um Chrysler.
Na época em foi publicado O Falcão Maltês, 1929, o grande crítico americano era Edmund Wilson, que punha a literatura policial abaixo de zero. Arrasava para valer! Apesar disso, o público se apaixonou por aquele tipo de ficção urbana, moderna, amoral, violenta e povoando de personagens novos a paisagem literária.
Além de as pessoas se apaixonarem pelas histórias, o cinema viu na fórmula policial a estrutura ideal para prender a atenção e começou a usá-las. Usou-as e as divulgou com toda a força que possuía. De repente, as pessoas ficavam ligadas em histórias onde carros rolavam pelas ribanceiras, casas eram explodidas com gente dentro, inocentes eram mortos a sangue frio.
Logo após o sucesso estrondoso de Dashiel Hammett, ele foi copiado por gente do calibre de Raymond Chandler, James Cain e Ross Macdonald, o que prova que ele criou um estilo. O que se diz é que Hammett fez primeiro, mas Chandler fez melhor!
Falcão Maltês saiu em 1929 e O Sono Eterno de Chandler saiu em 1939. Por causa dele, a literatura do século XX começou a deixar de ver o romance policial como algo dos porões e começou a convidá-la para a sala de jantar. Chandler conseguiu com que o temível Edmund Wilson dissesse que seus livros pertenciam às prateleiras “um pouco” mais sérias.
Chandler também começou na revista Black Mask, onde escreveu até que criou o detetive Philip Marlowe que, como Sam Spade, era um detetive durão e insensível. Mas Chandler conseguiu fazer dele um personagem um pouco mais profundo em termos psicológicos.
O detetive Philip Marlowe, que tinha quarenta e poucos anos, era descrito como um homem alto, de olhos cinzentos e “com um queixo de pedra”, um durão lacônico e metido a engraçado, mas também muito inteligente (tinha curso superior), introspectivo e um profundo conhecedor da natureza humana. Marlowe operava seu negócio de um homem só em Los Angeles. Era um homem movido pelo desejo de justiça e cooperava com a polícia.
Marlowe gostava de xadrez e poesia. Bebia um bocado e não temia riscos físicos nem usar violência quando necessário. Moralmente correto, encontrava em suas aventuras várias “mulheres fatais”. Chandler se esforçou em desenvolver uma forma de arte em suas histórias policiais. O Sono Eterno foi publicado quando Chandler tinha 51 anos; sua última novela, Playback, aos 70 anos. Todas as oito novelas do criador de Marlowe foram escritas nas duas últimas décadas de sua vida.
Marlowe foi interpretado no cinema pelos atores Humphrey BogartRobert MontgomeryGeorge MontgomeryRobert MitchumDick PowellElliot GouldDanny GloverJames Garner e James Caan. Ufa!
Com tudo isso, tornou-se um hard boiled inesquecível! Até a próxima!

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A fórmula, na França e no Brasil

A fórmula, na França e no Brasil

Na semana passada falamos um pouco sobre as damas do crime, seus cadáveres encontrados em ambientes fechados e bons detetives, conhecedores da alma humana, investigando e apontando o culpado. É preciso não esquecer de que todas elas se formaram na época em que Freud elaborava as bases das ciências psi, daí seus detetives serem tão versados no conhecimento da alma humana.
Em 1903 nasceu Georges Simenon, escritor belga de língua francesa. Foi um romancista de uma fecundidade extraordinária: escreveu 192 romances, 158 novelas, além de obras autobiográficas. Escreveu numerosos artigos e reportagens com seu nome e outro tanto sob diferentes pseudônimos.
Para a história do gênero policial, o que interessa é seu personagem, o Comissário Maigret, protagonista de 75 novelas e 28 contos. Vendeu milhares de livros em todo o mundo!
O Comissário Maigret surgiu em 1931. Fumante de cachimbo, usava sempre sobretudo de gola de veludo acompanhado do chapéu. Era um homem grande e gostava de boa comida. Pode-se dizer que Maigret rivaliza em prestígio com os mais famosos detetives da literatura policial, como Sherlock Holmes e Hercule Poirot; e é, sem dúvida, o mais humano.
Parisiense, vivia num apartamento no Boulevard Richard-Lenoir com sua esposa Louise. Simenon criou para seu personagem uma tranquilidade doméstica que ele próprio, segundo suas autobiografias e biografias, jamais teve. Maigret viveu apaixonado por sua esposa e sempre foi seu amigo e confidente. Enquanto resolvia seus casos, gostava de ir para a casa, conversar com sua esposa. A única pedra no seu sapato era o magistrado Cornelius.
Nas suas histórias, não existe um conhecimento muito profundo da alma humana. Maigret envereda pela psicopatologia do cotidiano (Freud, 1901). Gostava de ir ao local onde o crime havia ocorrido, em geral pequenas vilas francesas, e sentir a atmosfera, observar pequenos detalhes, como a maneira da mulher pegar no braço do marido e como se comportavam as pessoas no primeiro encontro; sentir os pequenos deslizes, pequenas coisas esquecidas em determinados locais.
Enquanto ele está “sentindo” o local, o leitor tem a sensação de que ele não está fazendo nada. Mas ele está observando todos os pequenos detalhes, uma observação sempre seguida de um olhar cético sobre a sociedade. E é por aí que os casos são resolvidos. Mais do que um crime a ser desvendado, é a correta colocação de cada personagem em seu ambiente e a valorização dos dramas humanos que fazem dele um autor consagrado.
Simenon usava um vocabulário relativamente pequeno, de 2 mil palavras, para escrever suas histórias. Propunha uma intriga simples, mas com personagens fortes, um herói humano, obrigado a ir ao fundo de sua lógica. A mensagem de Simenon é complexa e ambígua: nem culpados, nem inocentes, mas culpas que se engendram e se destroem em uma cadeia sem fim. Seus romances colocam o leitor em um mundo rico de formas, cores, sentimentos e sensações desde a primeira frase.
Seus melhores romances são baseados em intrigas e assassinatos nas pequenas vilas de províncias francesas. A investigação evolui à sombra de personagens de aparência respeitável, que engendram empresas tenebrosas. É nesse clima que o comissário Maigret come especialidades locais, bebe boas bebidas e acaba apontando o assassino.
Até aqui, falei bastante sobre o policial europeu. No entanto, é preciso saber que aqui no Brasil, em 1920, escreveu-se a primeira narrativa policial de que se tem notícia. Foi publicada em capítulos pelo jornal A Folha a partir de 20 de março, e editada em livro no mesmo ano. A narrativa, chamada O Mistério,  foi escrita por quatro escritores, ou seja, a oito mãos: Coelho Neto, Afrânio Peixoto, Medeiros e Albuquerque e Viriato Corrêa. Além deles, o exemplo mais famoso de parceria em policiais é a dupla de primos norte-mericanos Manford Lepofsky e Daniel Nathan, que criou o autor detetive Ellery Queen.
No caso de O Mistério, a parceria se dava com cada um dos autores escrevendo um capítulo e o próximo deveria continuar dali, sem um planejamento prévio. No romance, temos o Major Mello Bandeira, detetive policial encarregado de investigar um caso de assassinato. Ele é relacionado à literatura policial europeia e descrito como o “Sherlock da cidade”. Esta característica acaba sendo motivo de situações cômicas. Ao tentar aplicar métodos científicos tecnológicos de investigação na linha Holmes, o Major Mello Bandeira acaba por se dar mal e por ser alvo da ironia dos companheiros. Ao colocar cães rastreadores no encalço do criminoso, eles acabam se voltando contra o próprio investigador, que esqueceu em seus bolsos as luvas e os sapatos do assassino.
Mello Bandeira procura ser, como Holmes, uma máquina de raciocinar. Mas o surpreendemos em uma atitude carinhosa com uma das moças detidas para investigação. Tal deslize, naquele que pretendia ser o protótipo da máquina de pensar, não é perdoado por Medeiros e Albuquerque, que faz com que a personagem se suicide.
Como podemos ver, a fórmula, aos poucos foi evoluindo segundo o pensamento da época e se espalhando pelo mundo, chegando até o Brasil.
Até a próxima!

domingo, 14 de agosto de 2011

Damas do crime

Damas do crime

Depois da fantástica dupla Sherlock Holmes e Watson, tivemos alguns outros autores de livros policiais, mas o fato marcante foi a chegada de Agatha Christie, por muito tempo a grande dama no mercado editorial mundial, só vendendo menos do que a Bíblia. Os críticos a crucificavam por ela usar uma única fórmula em suas narrativas. No entanto, é preciso reconhecer que ela usou a “formula” com muita habilidade. Julgamentos à parte, ela ocupa um capítulo especial dentro de uma literatura chamada “de massa”. E, a exemplo do que Conan Doyle fazia muitos anos antes, costuma viciar seus leitores.
Agatha Christie se situa no melhor da tradição inglesa, a das histórias de detetive que usam mais o intelecto do que os punhos. Na sua época, a polícia já contava com a Scotland Yard e diversos recursos para descobrir os criminosos. Os detetives de Agatha Christie investigam casos, baseando-se no profundo conhecimento da alma humana.
Seus detetives são Miss Marple e Hércule Poirot. Eles não têm aquele amigo que os admira e narra os acontecimentos para o leitor. Seus casos se passam sempre na aristocracia inglesa. O ambiente é refinado. O desenlace também é clássico. O detetive reúne os suspeitos e, com lógica implacável, demonstra quem é o assassino.
De nacionalidade belga, Poirot é um personagem extremamente extravagante. Não é nada modesto, e está sempre se gabando da forma como usa as suas “células cinzentas”. Possui um grande e belo bigode que é o que melhor o identifica, e tem sempre uma aparência elegante e impecável. Ele é um grande fã da ordem e do método, daí estar sempre impecavelmente vestido. Em certos momentos, chega a ser rabugento. O personagem apareceu pela primeira vez em 1921, no romance O misterioso caso de Styles.
Ao contrário dos outros grandes detetives da Scotland Yard, Poirot diz que pode resolver um crime estando “apenas sentado na sua poltrona”. Ele compara os seus colegas a “cães de caça humanos”, pois eles usam pequenas pistas no chão, pegadas e impressões digitais como método de trabalho. Além de “pequenas células cinzentas”, Poirot usa como único meio a psicologia humana. Não é um detetive de ação, mas meramente dedutivo, que para resolver seus crimes prefere interrogar todos os envolvidos; porém, muitas vezes, precisa investigar a pedido de seu amigo Hastings, ou por extrema necessidade.
A outra detetive de Agatha Christie é uma mulher. Miss Jane Marple é uma anciã que mora na pequena aldeia inglesa de St. Mary Mead. Aparentemente é uma idosa comum, que se veste sem muita classe e é vista frequentemente tricotando e tirando ervas daninhas de seu jardim. Às vezes, é considerada confusa ou caduca, mas quando passa a resolver mistérios, mostra ter uma mente lógica e afiada, e um conhecimento incomparável da natureza humana com todas suas fraquezas, forças, truques e excentricidades. Sua primeira aparição foi em 1930, no romance Assassinato na Casa do Pastor.
Ao todo, Agatha Christie é autora 66 novelas policiais, 163 histórias curtas, duas autobiografias, vários poemas, e seis romances “não crime” sob o pseudônimo de Mary Westmacott. Pioneira em criar desfechos impressionantes, verdadeiras surpresas para os leitores, seus textos seguem fascinando as novas gerações.
Além de Christie, podemos falar que as damas do crime são basicamente as inglesas P.D.James, Ruth Rendel e Dorothy Sayers e a americana que viveu na Europa, Patricia Highsmith
Como seus detetives, P. D. James criou o comandante Adam Dalgliesh, Ruth Rendel o inspetor Wexford e Dorothy Sayers o Lord Peter Wimsey. A exemplo de Agatha Christie, todas elas criavam tramas em que o cadáver aparecia em locais fechados, em geral localizados em pequenas comunidades e descritos como ecos das clássicas histórias inglesas. Todas mostravam o ambiente refinado da aristocracia inglesa. O desenlace também é clássico, o detetive reunindo os suspeitos e demonstrando quem é o assassino.

Uma grande mudança acontece com Patrícia Highsmith (1921-1995), americana que viveu na Inglaterra e na Suíça. Ela estreou com Pacto Sinistro, que foi filmado por Hitchcock. Das damas do crime, é a que saiu dos padrões clássicos, talvez até por sua sexualidade extravagante para a época: era lésbica declarada.

Em 1955, publicou a primeira história da série Ripley, o anti-herói. Na época, os romances policiais se equilibravam entre o crime e as três decorrências lógicas: a investigação, o criminoso e a solução. O escritor mantinha o foco na investigação. Uma das estratégias da autora para manipular a convenção foi girar o triângulo e centrar a narrativa no criminoso, ao invés de na investigação. Com isso, ela minimiza o suspense; destaca as “motivações” do seu anti-herói e as “consequências” de seus atos.

Bem, aos poucos vamos vendo as mudanças! Até a próxima!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Elementar, meu caro Watson

Elementar, meu caro Watson

Na semana passada falamos sobre a fantástica criação da figura do detetive como personagem de ficção. Isto aconteceu quando, em 1841, Edgar Allan Poe apresentou Auguste Dupin.
Hoje, ao lermos seus contos, os argumentos podem nos parecer um pouco ingênuos. Mas na época, os primeiros leitores de ficção policial ficaram maravilhados. Poe queria que o gênero policial fosse intelectual/fantástico, fruto não apenas da imaginação, mas especialmente da inteligência. Por ser americano, ele poderia ter situado seus crimes em Nova Iorque, mas assim o leitor ficaria imaginando se as coisas se desenvolveram realmente desse modo, se a polícia de Nova Iorque age desta ou daquela maneira. Tornou-se mais cômodo e mais livre que tudo ocorresse em Paris, no bairro deserto de Saint-Germain. Por isso, o primeiro detetive da ficção policial é um estrangeiro, um francês.
Por que um francês? Porque quem escreve a obra é um americano que necessita de um personagem distante. Para fazer com que seus personagens se tornem invulgares, mostra-os vivendo de uma maneira diferente da dos outros homens. E também o investigador era um aristocrata e não um policial. Com isso, ele já coloca um pouco em ridículo a polícia e seus métodos, que não são frutos das deduções da inteligência, estabelecendo alguns padrões que foram seguidos por vários autores. O narrador é amigo/discípulo do investigador, a reflexão predomina sobre a ação, o final precisa surpreender o leitor.
Para nos situarmos no tempo, Poe publicou Os Crimes da Rua Morgue em 1841. Em 1887 surgiu Um estudo em Vermelho, que apresentava ao público o maior detetive de todos os tempos: Sherlock Holmes.
Criado pelo britânico nascido na Escócia Conan Doyle, Holmes é o detetive que, quando o autor se cansou dele e o matou, teve que ser ressuscitado. Seus leitores o amavam tanto que o exigiram de volta!
Suas histórias são contadas pelo médico, amigo e admirador, Dr. Watson. Falar sobre esta dupla é uma ousadia diante dos milhares de biografias e estudos que existem a seu respeito. Como temos falado da criação da personalidade do detetive, vamos nos ater a essa parte. Dupin aparecia nas narrativas de Poe apenas como uma “maquina de pensar”. Sherlock Holmes, além de ser um detetive com mente dedutiva, mostra uma personalidade marcante. Holmes, entre outras características, tem profundas crises de melancolia e se deleita tocando violino.
Segundo alguns indícios que seus biógrafos captaram, Holmes nasceu em 6 de Janeiro de 1854 , filho de um agricultor e de uma mãe de origem francesa, pois sua avó era filha do pintor Horace Vernet. Seu irmão mais velho, Mycroft, trabalhava para o Serviço Secreto britânico. Mycroft passava a maior parte do seu tempo livre no Diogenes Club. Segundo Holmes, seu irmão Mycroft não somente era mais brilhante do que ele próprio, como também possuia um senso de observação e dedução muitas vezes superior ao seu. Numa das aventuras de Holmes, onde ele encontra o seu irmão Mycroft diante do Diogenes Club, os dois mantêm um diálogo recheado de deduções sobre um transeunte que deixa Watson completamente atônito.
Após os seus estudos, o jovem Sherlock Holmes instala-se como detetive em Londres, onde divide um apartamento no famosíssimo endereço em Baker Street. Até hoje muita gente visita o endereço, com a certeza de que Holmes e Watson lá viveram.
Poe não informa ao leitor nenhuma característica do seu narrador. Não se sabe seu nome, sua aparência física, sua idade. Sabe-se apenas que ele é um amigo fiel e companheiro de moradia de Dupin. Conan Doyle transforma o narrador. Criou um personagem com uma inteligência um pouco inferior à do leitor, a quem chama de Dr. Watson. Ele não para de se maravilhar e é sempre influenciado pelas aparências, deixando-se, por gosto, dominar por Sherlock. Relata suas proezas intelectuais, ajudando o leitor a se adiantar ao narrador na solução do enigma.
Assim, se muitas vezes o leitor não consegue acompanhar os elos das equações mentais do detetive, sente-se, por outro lado, gratificado pela sensação de superioridade mental em relação ao narrador: elementar, meu caro Watson!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

E terminando com um final feliz

E terminando com um final feliz

Na semana passada falamos sobre a criação da fantástica fórmula literária: crime, investigação e solução. É como a invenção da roda: nos dias de hoje ninguém se pergunta como alguém teve essa ideia, e com o romance policial acontece o mesmo. O leitor devora o livro e basta. No entanto, uma pesquisa minuciosa vai nos levar a entender melhor a criação desse homem que é uma máquina de pensar. Allan Poe soube captar a essência de sua época.
Quando engendrou Os Crimes da Rua Morgue, a filosofia corrente era o positivismo, que considerava como único conhecimento legítimo o que se encontrava nas ciências naturais, baseado na observação, experimentação e utilização de conceitos matemáticos. Acreditava-se que a ciência deveria se basear na evidência (que fornece ideias claras e distintas) e na dedução que as encadeia (técnica que o primeiro detetive vai usar). Na mesma época, Comte criava a sociologia, uma ciência fundada na análise de fenômenos diretamente observáveis.  Era também a época em que Charles Darwin, baseado na observação da natureza, estava formulando o seu livro A Origem das Espécies.
Foi baseado na observação que, aos poucos, percebeu-se que mesmo no anonimato da cidade grande o criminoso deixava marcas. Ninguém se deslocava sem deixar traços. Muitos foram os folhetins publicados na imprensa da época que falavam de violência e crimes. No entanto, foi Edgar Allan Poe quem criou um homem genial, capaz de observar cientificamente cada um dos traços deixados pelo criminoso e, através deles, detectar o assassino.
Esse homem genial também recebeu uma pitada de influência do romance de cavalaria do final do período medieval, feito de um enredo cheio de suspense e violência e que tinha como propósito o modelo cristão em que os cavaleiros do bem, que em geral saíam em busca do santo Graal, vencessem o mal após muitas e variadas peripécias. Chandler, num ensaio, fala do detetive como um cavaleiro errante pelas ruas de Los Angeles, a cidade grande. Acredito que o romance policial traz também dos romances de cavalaria a sua carga mítica: a grande luta do bem contra o mal que termina por apontar o criminoso.
O fato é que apesar de boa parte dos críticos considerarem a literatura policial como um gênero menor, ela é um dos gêneros mais lidos no mundo. Seu público é eclético e variado: adolescentes e idosos, profissionais liberais, intelectuais, professores universitários, pesquisadores, homens e mulheres, aposentados etc. Ainda não existem estudos definitivos para explicar o porquê desse gosto do leitor. Talvez a explicação seja que o uso da fórmula (crime, investigação e solução) na construção literária traga em si uma grande carga mítica, um arquétipo, pois satisfaz as exigências de vitória do bem contra o mal. Existe também um grande desafio intelectual entre o leitor e o detetive. O leitor segue o raciocínio lógico e, junto com o detetive, tenta desvendar o crime. Quando finalmente o detetive captura, ou simplesmente aponta o criminoso, há uma sensação de que o mundo foi resgatado do caos, que a ordem foi restabelecida.
Como vimos, foram necessários séculos de História e Civilização — e uma conjunção de revolução industrial, literatura gótica, romances de cavalaria e filosofia positivista — para que Allan Poe juntasse tudo isso numa coqueteleira, chacoalhasse bem e produzisse o detetive, esse homem genial que proporciona aos leitores o prazer de enveredar num cotidiano repleto de minúcias, onde o raciocínio lógico deságua num final feliz, diferente do que vemos acontecer na realidade dos dias de hoje: o bem sempre vence o mal, como no mundo mágico dos contos de fadas! Com tudo isso, é fácil se tornar uma addict!
Se você gostou, acompanhe a coluna. Quarenta anos depois, Sir Arthur Conan Doyle usou a fórmula com maestria! Um estudo em vermelho! Até lá!