terça-feira, 29 de novembro de 2011

Modernos e modernistas

Modernos e modernistas

Nos últimos anos houve um aumento considerável de textos de literatura policial escrita por autores nacionais. Acredito que cada um deles merece uma crônica em separado. Hoje vou dar algumas rápidas pinceladas na modernidade e retornar um pouco no tempo para revelar uma curiosidade do gênero policial.
Entre os autores que estão publicando com sucesso temos Joaquim Nogueira, delegado de polícia aposentado que transpõe para a literatura suas experiências profissionais. Venício, seu protagonista, é um tira durão e honesto. Usa o telefone da vizinha e come arroz com feijão, bife e uma saladinha no botequim da esquina onde o dono vende fiado. Dirige um fusca velho e resolve os casos.
Nelson Motta criou o noir baiano, com o tranquilo investigador particular Augustão que anda de sandálias e bermudas e não vive sem sexo, drogas e afro-jazz. Jô Soares também usou a fórmula policial de uma forma lúdica em seus romances, começando pelo Xandô de Baker Street. Tony Belloto desceu do palco dos Titãs e criou o detetive Bellini, que já se deparou com o demônio, a esfinge e os espíritos.
Contratado por um bandido, o detetive Alyrio Cobra, criação desta que vos fala, viveu uma investigação interessante, que sairá logo no começo do ano pela KBR em ebook com o nome de Peças Fragilizadas (a versão em papel virá um pouco mais tarde, em grande estilo). Nos momentos em que ele se sente sem rumo nas investigações, Alyrio anda pelo centro velho de São Paulo, sobe ao terraço do edifício Banespa e observa a atordoante metrópole.
Voltando um pouco no tempo, existiu Patrícia Rehder Galvão, ou Pagu, como ficou conhecida. Acho muito curioso que uma mulher militante do partido comunista tenha se rendido à fórmula policial! Mas quem foi Patrícia Rehder Galvão, ou Pagu, como ficou conhecida? Com certeza uma mulher de inúmeros matizes, versátil, inteligente, corajosa e inquieta. Começou como jornalista (com 15 anos), tornou-se ativista política, autora de romances políticos e colaboradora de movimentos intelectuais. Militante comunista, foi a primeira mulher a ser presa no Brasil por motivações políticas.
Embora seja muito conhecida, sua vida merece ser ligeiramente relembrada.
Nasceu em São João da Boa Vista em 9 de junho de 1910. Bem antes de virar Pagu, apelido que lhe foi dado pelo poeta Raul Bopp, já era uma mulher avançada para os padrões da época. Cometia “extravagâncias” como fumar na rua, usar blusas transparentes, manter os cabelos cortados e dizer palavrões. Tinha muitos amantes e causava polêmica na sociedade. Esse comportamento não era nada compatível com sua origem familiar, pois era de família tradicional e conservadora.
Embora tenha se tornado musa dos modernistas, Pagu não participou da Semana de Arte Moderna. Tinha apenas 12 anos em 1922, quando a Semana se realizou. Entretanto, com 18 anos, mal completara o Curso na Escola Normal da Capital (São Paulo), integrou-se em 1928 ao movimento antropofágico/modernista, sob a influência de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.
Em 1930, promoveu mais um escândalo para a sociedade conservadora de então: Oswald separou-se de Tarsila e casou-se com ela no Cemitério da Consolação. Eram amantes desde a época em que Oswald era casado. No mesmo ano, nasceu Rudá de Andrade, segundo filho de Oswald e primeiro de Pagu.
Ativa no partido comunista, Pagu foi presa pela polícia política de Vargas ao participar da organização de uma greve de estivadores em Santos. Ao sair da prisão, largou o filho e o marido e foi para a Europa. Viajou pelo mundo. Filiou-se ao partido comunista francês.
Foi presa em Paris como comunista estrangeira, com identidade falsa, e teve que ser repatriada para o Brasil. Separou-se de Oswald depois de brigas sensacionais. Foi presa novamente. Ao sair da prisão, em 1940, rompeu com o Partido, passando a defender um socialismo de linha trotskista.
Casou-se pela segunda vez com o jornalista Geraldo Ferraz. Seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz, nasceu em 18 de junho de 1941. Nessa mesma época viajou à China e obteve as primeiras sementes de soja que foram introduzidas no Brasil. Foi uma mulher forte e revolucionária, que deixou marcas profundas na nossa história.
Ao ser acometida por um câncer, viajou para Paris a fim de se submeter a uma cirurgia, sem resultados positivos. Decepcionada e desesperada por estar doente, Patrícia tentou o suicídio. Voltou ao Brasil e faleceu no dia 12 de dezembro de 1962.
É curioso que uma mulher com esse histórico de vida tenha se rendido à fórmula policial. Sob o pseudônimo de King Shelter, em apenas seis meses — de junho a dezembro de 1944 —, escreveu contos policiais para a revista Detective, dirigida por Nelson Rodrigues, que publicava autores de peso.
Da mesma maneira que surgiu, King Shelter desapareceu. Os nove contos escritos para a Detective, um dos mais bem-sucedidos exemplos da pulp fiction no Brasil, jamais foram reeditados. Mas cinquenta e quatro anos depois King Shelter reapareceu, e, como em um bom enredo policial, sua identidade foi finalmente revelada. A redescoberta dos contos de Pagu seguiu um roteiro que poderia servir de ponto de partida para mais uma narrativa policial.
Geraldo Galvão Ferraz, filho de Pagu e fã das revistas policiais, encontrou em um sebo paulista uma coleção da Detective publicada no Brasil. Ao examinar com cuidado a nova aquisição em busca de um conto de Dashiell Hammett, descobriu uma história escrita por King Shelter. O nome jogou uma luz nas memórias de Ferraz: anos antes, ouvira uma referência ao pseudônimo em uma conversa com o pai, Geraldo Ferraz. “Ele havia me falado sobre King Shelter e chegou a me mostrar uma edição da Detective com um dos contos. Na época, não dei importância, nem sequer li. Depois, perdi a revista e o contato com Shelter”.
A partir do reencontro, Geraldo iniciou uma pesquisa até encontrar os nove contos. A descoberta dos contos policiais de Pagu mostrou a ele um aspecto desconhecido da mãe. “Há o aspecto curioso, de descobrir que uma mulher como ela, vista como libertária e engajada politicamente, escrevia contos policiais. Mas, ao ler o material, comecei a perceber que, além da curiosidade, ela tinha uma qualidade literária dentro do gênero e da época”.
Geraldo reuniu os contos e os publicou em Safra Macabra (Livraria José Olympio Editora, 1998). O detetive Ducrot, personagem criada por Pagu, ops!, por King Shelter, é descrito como admirador da lógica e do bom senso, mas às vezes, parte para a ação, atira e briga. “Ele é elegante e refinado, parecia muito um estudante boêmio com seu chapéu largo, a echarpe colorida, os olhos imprecisos, ora gaiatos, ora tristes” (“A mão viva da morta”). Em “O Dinheiro dos Mutilados”, a personagem Violeta Cottot é uma jovem francesa que, sob o pseudônimo “Mossidora”, escreve as mais perfeitas novelas policiais contemporâneas para uma revista chamada Delinquente, numa clara referência à sua própria condição, mas em tom jocoso.
Em Safra Macabra, os contos foram publicados em ordem cronológica, o que permite analisar a evolução da qualidade dos textos. À medida que publicava na revista Detective, Pagu se firmava no gênero, dominando cada vez melhor a técnica e a fórmula.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Espinosa sem o final feliz

Espinosa sem o final feliz


O policial é um gênero que, apesar de considerado pelos críticos uma literatura de entretenimento,  foi sempre aclamado no exterior pelo público e pelos editores. No Brasil, a multiplicação de textos de literatura policial de autores nacionais e a atenção dada por alguns editores a esse tipo de produção são pistas que nos levam a deduzir que a história da literatura policial brasileira ainda terá muitos capítulos, incluindo o meu detetive Alyrio Cobra, que começa a ser publicado.
Luiz Alfredo Garcia-Roza, considerado pela crítica um dos principais autores nacionais de literatura policial, teve todos os seus livros publicados pela Companhia das Letras na coleção Série Policial, que abarca obras tanto de autores estrangeiros como brasileiros. Garcia-Roza estreou na literatura de ficção em 1996, aos 60 anos de idade. Antes disso, foi professor universitário e autor de livros sobre psicanálise.
As histórias de Luiz Alfredo Garcia-Roza com seu delegado Espinosa são deliciosas. Li todos os seus livros, e recomendo. O delegado Espinosa é um policial honesto e respeitado, que vive no Bairro Peixoto em Copacabana e possui em seu apartamento uma montanha de livros sem estante. No entanto, as narrativas de Garcia-Roza não chegam a um desfecho definitivo: podemos afirmar que a ambiguidade nos desfechos é uma de suas características. Essa falta de um desvendamento claro, que geraria um veredicto capaz de delimitar a culpa de um crime em torno do criminoso faz com que suas narrativas não tenham o final feliz esperado na literatura policial. Segundo Sandra Reimão, autora do livro Literatura Policial Brasileira, suas narrativas podem ser vistas como que dialogando com clássicos da literatura policial noir.
Em O Silêncio da Chuva, romance de estreia muito premiado, um executivo é encontrado morto, sentado ao volante do próprio carro, num edifício-garagem no centro do Rio. Não há outros sinais de violência, apenas a marca de um tiro, único e definitivo: “é um morto de indiscutível compostura”. A intrincada história começa com o suicídio desse executivo, que deixa uma carta e vinte mil dólares como “presente” para que a polícia não divulgue a forma como morreu. No entanto, antes da chegada da polícia, um desocupado, por puro acaso, entra na garagem do edifício, encontra o morto, a arma, a carta e o dinheiro. Ao final da narrativa, o leitor fica sem saber o que o delegado Espinosa fará com os elementos materiais que sobraram do crime e que podem beneficiar alguns envolvidos.
Dos nove romances escritos até agora por Garcia-Roza, o detetive Espinosa só ficou de fora de Berenice procura, de 2005. Em Vento Sudoeste (1999), Gabriel, um rapaz triste e solitário, que mora com a mãe e está às vésperas de fazer 30 anos, procura o delegado Espinosa com uma  história estranhíssima. No seu último aniversário, um vidente tinha dito que ele cometeria um assassinato deliberado antes de completar 30 anos. Gabriel está assustado com o anúncio e seu aniversário se aproxima. Depois da conversa com Espinosa, a amiga que levara Gabriel para conversar com o delegado é assassinada. Há uma série de assassinatos de pessoas próximas a Gabriel. Dona Alzira, mãe do rapaz, acha que o filho está possuído pelo demônio e pede ajuda a um padre. Há uma versão final oficial para explicar os crimes, mas, no seu íntimo, o delegado Espinosa tem outra interpretação para os fatos. Para ele, o criminoso é outro, e ele diz: “o que eu acho é muito fantasioso para constar de um inquérito policial… Passado algum tempo, acho que ele vai me procurar… Não sei o que virá primeiro: a confissão ou a loucura”.
Espinosa sem saída é bastante inquietante. Nessa narrativa, Espinosa tem 43 anos e constata que está há 20 na polícia. Tem dificuldade de entender todo esse tempo e olha seu passado como se não lhe pertencesse de fato. “A mesma geografia”, reconhece, “e histórias tão distintas”. Sente-se envelhecer, declinar, e é dessa perspectiva que se dispõe a investigar a morte de um sem-teto. Ninguém, claro, se interessa pelo caso. Não se sabe o nome da vítima ou o que fazia no alto de uma ladeira, tarde da noite, sob um temporal. Ninguém o conhece, nem parece ter motivo para matá-lo. Não há suspeitos. Espinosa prossegue. E é a imaginação um tanto delirante do detetive que insiste em buscar laços entre a misteriosa morte do sem-teto e a gente moderna e chique, que mostra a rachadura social profunda do Rio de Janeiro, uma cidade de dupla personalidade, como tantos duplos que o livro traz: dois crimes (além do sem-teto, a de uma moça elegante e rica), dois nomes para um dos mortos, outros dois para uma das suspeitas, ambiguidades sexuais que opõem vertiginosos prazeres clandestinos à repetição do universo familiar. Sem contar, claro, a duplicidade do próprio detetive, cada vez mais distante do mundo em que trabalha, cada vez mais diferente das pessoas que o rodeiam.
Em seu último romance, Céu de Origamis, Espinosa está afastado do cargo, pois se recupera de um atentado relatado no livro anterior. Inicia de forma extraoficial a investigação sobre o estranho desaparecimento de um dentista. Na metade do livro, reassume o cargo. A história se sustenta no conjunto dos eventos que apresenta e na sólida caracterização do detetive, agora ainda mais reflexivo. Espinosa consegue construir raciocínios rigorosos e, ao mesmo tempo, flana pela cidade e pelas ideias, se imiscui nas tramas e se expõe.
Curioso é notar a construção gradativa de vínculos familiares do detetive. A aproximação com o filho e a manutenção da mesma namorada dos romances anteriores revela o amadurecimento e, melhor, o envelhecimento do personagem. É em Uma Janela em Copacabana que se percebe mais claramente o diálogo com a literatura noir, a começar pela capa do livro: Copacabana, Rio de Janeiro. Dois policiais são executados em curto espaço de tempo. Suas mortes têm muito em comum. Ambas as vítimas eram tiras de segundo escalão, com carreiras medíocres. Percorrendo as ruas de sua geografia predileta, entre os bairros do Leme e de Copacabana, Espinosa vai se deparar com outras mortes e com uma mulher enigmática e insinuante, casada com um figurão da área econômica do governo federal. Esta mulher observa a vida pela sua janela. Na foto da capa, temos parte da frente de um edifício com seis janelas iluminadas. Na janela central se vê uma moça provavelmente lendo, nas demais janelas, apenas venezianas e cortinas por detrás das quais luzes acesas indicam sinais de presença humana. A foto redobra e ressoa o título. O ângulo indica que o fotógrafo estaria em um apartamento do prédio em frente exercendo sua atividade de observador privilegiado e oculto da vida alheia. É um diálogo com o clássico do cinema de Hitchcock, “Janela Indiscreta”, de 1954, estrelado por James Stewart e Grace Kelly.
Espinosa ilustra a linha tantas vezes defendida pelo argentino Ricardo Piglia: a de que a narrativa policial é, sobretudo, uma crônica e uma denúncia social. Talvez por isso Garcia-Roza associe, pela boca de Espinosa, a realidade à ficção, sem se preocupar com o final feliz.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A forma da água

A forma da água


Na semana passada, falei de Manuel Vázquez Montalbán e seu detetive Pepe Carvalho. É justo falar hoje do italiano Andrea Camilleri, que criou o comissário Montalbano, Salvo Montalbano, em sua homenagem.
Andrea Camilleri nasceu em Porto Empedocle, Agrigento, em setembro de 1925. Iniciou sua vida como roteirista e diretor de teatro e televisão, produzindo os famosos seriados policiais do comissário Maigret e do tenente Sheridan. A partir dos anos 1980, passou a se dedicar à narrativa. Depois de escrever romances históricos, enveredou pelos caminhos da literatura policial: a consagração chegou apenas no início dos anos 1990, quando publicou A forma da água, primeiro caso do comissário Salvo Montalbano.
Criado, como eu disse, em homenagem ao escritor Montalbán, Montalbano tem em comum com ele o gosto pela gastronomia, mas está mais próximo de Maigret, de Simenon, de quem Camilleri era leitor desde a juventude e de quem se tornou grande conhecedor, através dos roteiros para séries de TV.
Nos casos de Montalbano, a cidade natal de Camilleri surge transfigurada como a cidade de Vigàta, na província de Montelusa, na Sicília. O local é magnificamente caracterizado pelo autor: o espírito siciliano, a comida, as paisagens, o humor, os tipos, tudo está presente nas histórias de forma ágil, divertida, e ao mesmo tempo sensível. Como Maigret, Montalbano aprecia a comida e tem seus locais e pratos preferidos, sempre explicando o modo de prepará-los. Vive sozinho, e tem uma mulher que vai arrumar sua casa e também prepara pratos excelentes. Todos com receitas!
Por trás de cada trama que se desenvolve na cidade fictícia, uma comunidade pobre do sul da Itália, o autor retrata com sensibilidade a realidade social que divide brutalmente a Itália meridional do resto do país. Em Vigàta a máfia está sempre subentendida, e a teia de corrupção, de compadrio político e intrigas compõe um painel de fácil compreensão para o leitor brasileiro, ao mesmo tempo em que nos serve de consolo, já que demonstra que certas mazelas não ocorrem apenas ao sul do Equador.
Salvo Montalbano tem um pai distante e uma noiva que trabalha e vive em outra cidade, e vem visitá-lo de vez em quando. Seus companheiros da polícia têm por ele respeito e amizade. Ele não é perfeito, precisa vigiar o peso, mas é apaixonado pela boa mesa. Vive próximo à praia e gosta de nadar e andar na areia. Raciocina melhor sobre seus casos quando, à noite, se deixa levar pelo calmo mar da Sicília.
Em uma de suas entrevistas, Camilleri fala de suas influências e confessa que, ao falar de Vigàta, fala da Sicília como um todo — como Tolstoi, que dizia que quem descrevesse bem sua vila estaria descrevendo o mundo. O autor afirma também que busca fazer um trabalho com a linguagem, misturando o italiano e certas expressões do dialeto siciliano, pois chegou à conclusão de que se escrevesse somente em italiano clássico não atingiria todos os objetivos.
Aqui no Brasil, a editora Record publicou diversos de seus romances policiais na série especial “Noir Europeu”. Sou suspeita para falar, pois gosto de romances policiais e gosto muito da Itália. O comissário Montalbano é um italiano típico, e a Itália por onde ele circula é descrita com uma veracidade incrível, o que nos mostra, que como a água, que  adquire a forma do recipiente onde a colocamos, também a fórmula policial se adapta a bons escritores! Vale a pena conferir.
A editora Record vem publicando todas as aventuras de Montalbano. Depois de A forma da água vieram O cão de terracota, O ladrão de merendas, A voz do violino, Excursão a Tíndari e A lua de papel, além de alguns livros de contos com pequenas aventuras que são deliciosas de se ler.
Até a próxima!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A fórmula engajada

A fórmula engajada

Não gosto de literatura engajada. Com raras exceções, são leituras longas e chatas. É preciso estar muito enfronhada no mesmo grupo para ver graça no texto e sentir prazer na leitura.
Um dos poucos engajadíssimos de que gosto muito é Manuel Vázquez Montalbán. Com certeza ele possui motivos de sobra para ser engajado! Seu pai, Evaristo Vázquez, republicano exilado na França, entrou clandestinamente na Espanha para conhecer o filho recém-nascido e foi preso. Enquanto estudava jornalismo, Montalbán trabalhou numa casa funerária. Estudou Filosofia e Letras na Universidade Autónoma de Barcelona. Em 1960, foi chefe nacional de propaganda do Servicio Universitário del Trabajo e depois colaborador interno da imprensa do Movimiento. Em 1961 se casou com Ana Sallés. Em seguida, passou um ano e meio na prisão por ter participado de uma manifestação. Ali escreveu o seu ensaio “Informe sobre la información” (1963). Entre 1963 e 1969 foi-lhe proibido o acesso aos meios de comunicação e foi-lhe retirado o passaporte até 1972. Participou na revista CAU (1970-74) e foi colaborador fixo da Triunfo e das revistas Mundo Obrero, La Calle e Interviú. Em 1977 ingressou no Comité Central do Partido Socialista Unificado da Catalunha.
Engajamento à parte, Montalbán nasceu em Barcelona, na Espanha, em 1939, e morreu em Bangkok, em 2003, de ataque cardíaco, no aeroporto. Foi um dos mais fecundos escritores espanhóis, com uma produção tão variada quanto premiada de mais de cinquenta romances, ensaios, biografias e reportagens. Escreveu ainda livros de poesia e a Autobiografia do General Franco (1992). No meio disso tudo, criou o detetive Pepe Carvalho, protagonista de uma série policial, no mínimo, fascinante.
Escrever sobre Pepe é um exercício de contradições. Pepe Carvalho é um detetive particular, ex-comunista, que mora em Barcelona. Além de ex-comunista, é também ex-agente da CIA. É uma surpresa Pepe ter trabalhado para a CIA, sendo quem é, ainda mais se considerarmos o autor do personagem. Outra contradição é que ele é um homem de uma cultura invejável, que queima livros em sua lareira!
Liberado da CIA, Pepe retorna à Espanha e começa a queimar livros. O que significa queimar livros? Seria uma metáfora para a libertação dos antigos mestres, ou, simplesmente, o ato de ignorar o conhecimento acumulado pela humanidade? A queima de livros foi sempre uma forma de o povo dominador reprimir a história do dominado. O Index (livros proibidos) do cristianismo é um exemplo disso, a história está recheada desse tipo de comportamento. No caso de Pepe, por vezes me parece um deboche em relação a tudo o que foi pensado e escrito e não serviu para nada!
A exemplo de Nero Wolf, que tinha um cozinheiro fantástico, Pepe também tem Biscuter, que não só cozinha, como explica as receitas e é seu único amigo e companheiro. Ambos são capazes de percorrer quilômetros somente para apreciar um determinado prato em um restaurante que poucos conhecem, mas cujo cozinheiro ou cozinheira são excelentes. A paixão gastronômica de Carvalho e Biscuter reflete a do autor, que em cada romance apaixonado inclui descrições culinárias dos pratos mais variados.
A companheira de Pepe é uma prostituta. Eles se dão muito bem, mesmo ela descrevendo o que faz com seus clientes. Aliás, ela trata sua profissão e descreve como atua com seus clientes como se descrevesse uma lavagem de roupa ou o trabalho em uma loja.
Resumi as contradições? Não, claro que não. Elas estão estampadas em cada livro, em cada dúvida, em cada solução de caso. Pepe Carvalho assume o desencanto e nos mostra uma Espanha em transição. E não somente a Espanha, mas o mundo que vivemos, a América Latina pós-ditaduras, o leste europeu pós-União Soviética, e também nos transmite uma ternura pelos vários lugares por onde Pepe (ou Montalban) passou, pelas cidades, pelos restaurantes, pelos bares, e, principalmente, pela comida.
Pepe Carvalho tem uma personalidade rica, complexa e contraditória. Para descrever as suas aventuras, e, em muitos casos, criticar seu país, o autor usa a situação política e cultural da sociedade espanhola durante a última metade do século 20.
A saga de Carvalho chegou ao fim com a publicação póstuma de Milênio, em que o detetive, acompanhado por seu parceiro inseparável Biscuter, impõe-se uma última aventura na forma de viagem, que acaba sendo um olhar amargo e melancólico sobre a situação sociopolítica do mundo e a passagem do tempo. Pepe se sente perplexo ao descobrir que está sendo acusado de assassinato pela polícia de Barcelona, e não lhe resta outra saída a não ser viajar (acompanhado do inseparável Biscuter) para Gênova e, de lá, seguir em uma fuga mirabolante ao redor do mundo.
Viajando sob os nomes de Bouvard e Pécuchet, personagens da obra de Gustave Flaubert, o detetive e seu assistente tentam ficar um passo à frente de seus algozes, enquanto procuram novas companhias para despistar as autoridades. Só que uma dessas companhias, que atende pelo nome de madame Lissieux (com quem Biscuter parece se entender muito bem), desaparece pouco depois de os freios do carro de Carvalho falharem misteriosamente. Conforme se intensifica a perseguição, Carvalho e Biscuter vão a Israel, Turquia, Cabul, Argentina e até ao Brasil, para resolver o enigma detetivesco. Milênio não é apenas uma aventura ao redor do globo, é também um giro gastronômico, político e sentimental pelo mundo contemporâneo.
Entre as muitas aventuras que Pepe Carvalho protagonizou está também O Quinteto de Buenos Aires. Menciono-a por ser uma história ambientada em Buenos Aires, vinte anos depois do golpe militar de 1976. Os porões da ditadura argentina voltam a se agitar quando Raúl Tourón, primo de Carvalho, desaparece na cidade ao tentar acertar contas com o passado. Nesse acerto de contas, sua filha foi sequestrada e sua mulher, morta. Em busca do primo desaparecido, o detetive Pepe Carvalho mergulha no rescaldo da ditadura.
Como podemos ver, Montalbán usou o apaixonante detetive Pepe Carvalho e a fórmula policial para fazer uma ótima literatura!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

A grande arte

A grande arte

Na semana passada falamos um pouco sobre o romance policial no Brasil, especialmente da primeira tentativa que foi O Mistério. Desde então, muita gente se aventurou nesta área. Acredito que a linha de sátira teve seu ápice com o detetive Ed Mort, personagem criado por Luís Fernando Veríssimo como uma paródia das histórias de crime norte-americanas.
Mort é um detetive particular trapalhão, sempre sem dinheiro, que se mete em todo tipo de encrencas. Divide seu espaço — um escritório em Copacabana, que ele chama apenas de “escri” porque é muito pequeno — com 117 baratas e um rato albino chamado Voltaire. A estrutura dos contos é sempre a mesma: Ed Mort está desocupado e sem dinheiro em seu escritório, chega uma mulher e pede que ele localize seu marido. Ele o faz e, por algum motivo, a cliente não o paga.
O exagero é o principal recurso cômico de Veríssimo. Parodiando os protagonistas das narrativas noir, que são normalmente rudes e sem recursos financeiros, Ed Mort apresenta estas características multiplicadas: “…respondi, arranjando as sobrancelhas na posição “Cínico Sim Mas Você Pode Me Recuperar”; ou “Meus móveis eram escandinavos. Caixotes de bacalhau Norueguês”. Era tão desprovido de recursos financeiros que até a caneta que usava era alugada.
No que diz respeito às mulheres, Ed realiza grandes investidas, só que apenas em sua imaginação: “Convidei-a a fazer amor oriental comigo. Algo envolvendo caligrafia, arroz e as sete safadezas de Lao-tsé. Isto em pensamento, claro.”
Em 1997, Ed Mort virou filme, dirigido por Alain Fresnot, com roteiro baseado no conto “Procurando o Silva”. O detetive foi interpretado por Paulo Betti.
Além da sátira, podemos afirmar que no Brasil houve também tentativas muito bem-sucedidas de uma literatura policial séria. Vários autores como Marcos Rey, Fernando Sabino, José Louzeiro e outros escreveram narrativas policiais.
Em 2004, a Editora DBA resgatou uma coletânea do contos muito importante: A ideia de matar Belina, de Luiz Lopes Coelho, reeditado justamente por ser um elo perdido (e reencontrado pela editora) entre a tradição anglo-americana do romance policial e a moderna narrativa criminal brasileira. O detetive de Luiz Lopes Coelho, Dr. Leite, é o primeiro exemplar de uma galeria de investigadores. Os contos são realmente deliciosos e têm um sabor da belle époque paulistana, descrevendo lugares onde se reunia a elite, como o Jóquei Clube. Com o retorno do detetive Dr. Leite à cena do crime a Editora DBA fez justiça ao charmoso e bem-humorado introdutor de nosso romance criminal.
No entanto, podemos afirmar que o grande marco da literatura policial brasileira é Rubem Fonseca, que se tornou, a partir de meados dos anos 1970, um sucesso de vendas. Desde o livro de estreia — os contos de Os prisioneiros, publicados em 1963 — a temática da violência tem sido central em sua produção. Em 1975 foi publicado o Feliz Ano Novo, que foi interditado pela censura federal em 1976. A polêmica criada pela interdição propiciou uma divulgação ainda maior de sua obra.
Rubem Fonseca geralmente retrata, em estilo seco e direto, a luxúria e a violência urbana em um mundo onde marginais, assassinos, prostitutas, miseráveis e delegados se misturam. Retratar a História através da ficção é também uma marca de Rubem Fonseca, como nos romances Agosto, seu livro mais famoso, em que retratou as conspirações que resultaram no suicídio de Getúlio Vargas; e em O Selvagem da Ópera, em que retrata a vida de Carlos Gomes; ou ainda em Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, que retrata A Cavalaria Vermelha, livro de Isaac Babel.
Para protagonizar alguns de seus contos e romances, Fonseca criou um personagem antológico: o advogado Mandrake, mulherengo, cínico e imoral, além de profundo conhecedor do submundo carioca. Mandrake foi transformado em série para a rede de televisão HBO, com roteiros de José Henrique Fonseca, filho de Rubem, e o ator Marcos Palmeira no papel-título. A série foi baseada nos livros A Grande Arte e Mandrake, a Bíblia e a Bengala.
Mandrake é um advogado do Rio de Janeiro especializado em resolver casos de chantagem e extorsão, que se envolve tanto com indivíduos da alta sociedade carioca quanto com as camadas mais baixas da sociedade. Seu trabalho é lidar com esses elementos para ajudar seus clientes.
A produção de Rubem Fonseca propiciou certa “retomada de fôlego” do gênero policial no Brasil e se tornou referência para os escritores que se seguiram. Apesar de muitas vezes classificado como autor de literatura policial, especialmente pelos contos em que usa o personagem Mandrake, apenas nos romances A grande arte e Bufo & Spallanzani ele usa as técnicas narrativas clássicas do romance policial.
A grande arte é uma história de verdades e fachadas, de colunáveis e respeitáveis corruptos de luvas brancas e de pequenos marginais de mãos ensanguentadas; de violências legalizadas e de massacres físicos. O papel do Brasil na rota internacional da cocaína é um dos dados de ação do livro. A trama básica conduz o texto, por um lado, a abordar o crime de “colarinho branco” organizado e, por outro, a tematizar uma questão que paira no horizonte da literatura policial – a do homem como possível leitor de signos e possível agente de seu destino, em contraponto ao homem enquanto paciente de um destino que lhe é ininteligível e inexorável. O romance teve uma versão fantástica para o cinema, a começar pela primeira tomada, uma aproximação dos arcos da Lapa.
Em Bufo & Spallanzani, Ivan Canabrava é um detetive da Companhia Panamericana de Seguros que está investigando o caso de um fazendeiro que morreu pouco após fazer um seguro de um milhão de dólares. Desconfiado de que a empresa onde trabalha esteja sendo vítima de uma fraude, Ivan passa a investigar a viúva e descobre, no apartamento do casal, um sapo morto e uma planta exótica. Pesquisando sobre o assunto, com a ajuda do cientista Ceresso e da jovem Minolta, Ivan passa então a se envolver cada vez mais com suas investigações, o que desagrada seu chefe.
Como podemos ver, tanto a sátira como a versão séria têm gente de peso como seus representantes, provando que o romance policial é A GRANDE ARTE.