segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Jogo de Poder

Jogo de Poder


A ideia principal do filme argentino “Tese Sobre um Homicídio” é colocar mestre experiente e aluno talentoso se antagonizando em um intrincado jogo psicológico. A crítica não lhe deu as merecidas estrelas.
Acho que somos rivais da Argentina no futebol, mas é preciso reconhecer a qualidade deste thriller psicológico. A famosa fórmula do romance policial está nele: crime, investigação e solução. No entanto, a investigação vai um pouco além de se descobrir quem matou, transforma-se num jogo de poder.
Roberto Bermudez (Ricardo Darín) é um especialista em Direito Criminal que ministra um curso bastante reconhecido em Buenos Aires. Uma nova turma está iniciando as aulas, e entre os alunos está Gonzalo (Alberto Ammann), filho de um velho conhecido do professor.
De personalidade um tanto arrogante, Gonzalo parece não somente interessado nos ensinamentos do mestre. Enquanto Roberto, um solteirão convicto, leva uma vida de encontros furtivos com mulheres mais novas, Gonzalo discute em profundidade todas as questões propostas pelo mestre, especialmente seu fascínio pelos detalhes na aplicação da lei.
Durante uma das aulas, o corpo de uma moça é encontrado no estacionamento da faculdade, aparentemente colocado de forma que Roberto e seus alunos pudessem avistá-lo de sua janela. Pelo fato do crime ter acontecido praticamente na sua frente, Roberto se interessa pela investigação. Ao se aproximar do corpo, vê detalhes importantes e fica sabendo que ela era garçonete de um restaurante que costumava frequentar. Seu interesse aumenta, e ele passa a crer que Gonzalo seja o autor do crime. Acredita que o aluno esteja desafiando seus talentos investigativos numa espécie de exibicionismo perverso
Num diálogo muito bem construído, Gonzalo explica ao professor que, embora o tenha visto pela última vez no seu aniversário de nove anos, por toda vida desenvolveu uma grande admiração por seu trabalho. Seus pais jamais deixaram de falar sobre o brilho da sua carreira, o que lhe despertou o desejo de seguir-lhe os passos. Em seguida, diz que seu pai, quando ele tinha 15 anos, fez um teste de DNA para saber se era mesmo seu pai biológico, mas nunca foi buscar o resultado.
Naquela noite, em casa, Roberto revê velhos slides que não deixam dúvidas sobre seu relacionamento com a mãe de Gonzalo. A partir daí, não se tem certeza se a luta é entre o mestre e o aluno ou se Gonzalo passou a vida ouvindo a mãe elogiar Roberto e decide confrontá-lo, agir de forma a mostrar-se superior ao suposto pai biológico.
Habilmente, o roteiro explora também uma espécie de desafio entre o professor maduro e o aluno jovem, numa rivalidade masculina e sexual, envolvendo a conquista de Laura, irmã da moça brutalmente assassinada. Além disso, Roberto suspeita que Laura possa ser a próxima vítima de Gonzalo.
Os dois, tanto Roberto como Gonzalo, se transformam em personagens obstinados, embrenhando-se um na vida do outro, seguindo, investigando.
Para a polícia e os verdadeiros investigadores do caso, tudo o que acontece parece não passar de um grande equívoco do experiente criminologista Roberto, obcecado por detalhes e pela ideia de que Gonzalo é o assassino. As provas vão se esfarelando. Os desafios aumentam.
Não vou contar o final do filme. No enredo há um crime a ser esclarecido, e é sobre esse fundo de investigação que os dois homens se enfrentam. Havendo o crime, existe um culpado, e descobri-lo é o que move toda a trama.
A grande vantagem dessa trama é que, quando o filme termina, certas questões permanecem na cabeça do espectador por algum tempo. Isso é bom, e revela uma obra não apenas limitada ao tempo de sua exibição. De forma eficaz, o diretor faz a peleja dos personagens evadir a tela e tocar o público.

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